quarta-feira, 5 de agosto de 2020

LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO



1 – Definição

Doença inflamatória crônica, multissistêmica, autoimune, na qual ocorre lesão mediada por auto anticorpos contra órgãos, tecidos e células, com prevalência maior em mulheres em idade fértil e negros

 

2 – Etiopatogenia

  • Interação entre genes suscetíveis e ambientais: levariam a respostas imunológicas inapropriadas
  • Hiper-reatividade de células B e T: auto anticorpos produzidos contra complexos proteicos, como DNA, RNA e membranas celulares
  • Falência do circuito imunorregualtório: ligação entre antígenos próprios e auto anticorpos formando imunocomplexos sobre estruturas fixas ou circulantes, capazes de depositarem em paredes endoteliais ou em tecidos, causando agressão tecidual onde estão depositados
  • Genéticos: alelos do HLA-DR 2 e 3, relacionados a apoptose e ao clearence de imunocomplexos
  • Ambientais: UVA e UVB pode acelerar surtos da doença, principalmente quadros cutâneos
  • Hormonais: mulheres em idade fértil, podendo iniciar o quadro durante ou logo após a gestação, devido a influência do hormônio do estrogênio
  • Infeccioso: vírus Epstein-Barr, CMV, Parvovírus B19 podem servir de gatilho imunológico em pessoas predispostas
  • Drogas: podem induzir lúpus, como a Hidralazina, Procainamida, Minociclina, Lítio, Fenitoína, Carbamazepina

 

3 – Manifestações clínicas

Crises intercalados com período de remissão, podendo apresentar sintomas inespecíficos como fadiga, mialgias, artralgias, alopecia, febre, emagrecimento.

a)      a) Articulares

  • Acomete de 70 – 100%: poliartralgia ou poliartrite intermitente
  • Sem lesões erosivas: ocorre principalmente nas mãos, punhos e joelhos
  • Artropatia de Jaccoud: surtos nas articulações podem provocar frouxidão ligamentar, com subluxações não fixas e redutíveis, sem destruição articular
  • Necrose asséptica: dores localizadas e persistentes em uma única articulação (joelho ou quadril), complicação da LES devido ao uso de corticoide e a síndrome do antifosfolipide (fazer dx diferencial com artrite séptica em pacientes imunossuprimidos)
  • Miosite: com fraqueza muscular e aumento de CPK são infrequentes

 

b)     b) Mucocutâneas

  • Acomete de 80-90%
  • 4 critérios: fotossensibilidade, rash malar, lúpus discoides e úlceras oronasais
  • Úlceras orais: acometem o palato duro, língua, mucosa jugal (bochechas) ou nasal

  • Lesões cutâneas: podem ocorrer por vasculite, levando a urticária, púrpura palpável, úlceras digitais ou pápulas eritematosas nas palmas e dedos das mãos

 

  • Agudas: lesões podem ser eritematosas, bolhosas ou maculares em áreas foto expostas. São superficiais, e não deixam sequelas, tendo como achado clássico o rash malar sobre o nariz poupando o sulco nasolabial

    

  • Subagudo: pápulas eritematosas ou pequenas placas, aspecto anular, simétricas, localizadas em áreas fotoexpostas (ombros, tronco, pescoço, antebraços)

  •  Crônica:

* Lúpus discoide: pápulas ou placas eritematosas, espessadas, com áreas de hipo ou hiperpigmentação e atrofia central, permanecendo mesmo com controle da doença. As bordas são eritematosas e endurecida, quando a doença está ativa, e acomete áreas foto expostas (face, orelha externas e couro cabeludo, levando a alopecia)

 

  * Lúpus túmido: lesão inicial dos lúpus discoides, acumulando mucina, apresentando-se umedecida e eritematosa

 

* Lúpus profundo: acomete a derme profunda e a gordura subcutânea, formando nódulos que tendem a evoluir, deixando depressões decorrentes da lipoatrofia


 

  

c)      c) Renais

  • Acomete 2/3 dos pacientes: depósito de imunocomplexos circulantes, levando a ativação do complemento e recrutamento de células inflamatórias
  • Fator de mau prognóstico: que pode provocar nefrite, hematúria microscópica, leucocitúria, perda da função renal, hipertensão e proteinúria
  • Biópsia renal:
    • Determina o tipo histológico
    • Seleciona a melhor terapia
    • Avalia os índices de atividade e cronicidade
    • Indicada em:

1.      Situações de mudanças de tratamento, indefinição diagnóstica, suspeito de alto grau de cronicidade ou retratamento

2.      Anormalidades leves na urinálise: refratárias ao tratamento, com doses baixas de corticoide

3.      Proteinúria em nível trófico: porém com manutenção da função renal

4.      Aumento gradativo dos níveis de ureia e creatinina sem causa aparente

  • Nefrite lúpica
    • Doença contínua: com surtos que requerem novos tratamentos
    • Fatores de pior prognóstico: cor negra, início em idade jovem, proteinúria nefrótica, cronicidade, HAS, anemia, hipocomplementenemia
    • Classe I e II: bom prognóstico, sem alteração da função renal, sem queda de complemento e nem positividade do anti-DNA
    • Classe IV: graves, perda da função renal, que do complemento, proteinúria, hipertensão e positividade do anti-DNA

     

d)     d) Hematológicas:

  • Qualquer componente celular pode ser afetado: consequência da doença ou como complicações pelo uso de drogas para controle da doença.
  • Anemia: acomete 80% dos pacientes, que pode ocorrer por deficiência de ferro ou insuficiência renal
    • 10% ocorre anemia hemolítica: mais grave, rápida instauração, com hiperbilirrubinemia indireta, reticulocitose, aumento de DHL, teste de Combs direto e consumo de haptoglobina
  • Leucopenias: comum, quase sempre por linfopenia, sem necessidade de tratamento, exceto quando atinge valores <600/mm³ por tempo prolongado
  • Granulocitopenia: mais raro
  • Plaquetopenia: comum, com risco de sangramento espontâneo quando atinge valores <20.000/mm³

 

e)      e) Neuropsiquiátricas

  • 2/3 tem manifestação: podem ocorrer síndromes neurológicas centrais, periféricas, autonômicas ou psiquiátricas
  • Tipos:
    •  Deficiência orgânica cognitiva: dificuldade de memória, atenção e argumentação.
    • Estado confusional agudo: se instalar em curto período de tempo, com flutuações de consciência e atenção
    • Psicose: deve ser distinguida da induzida por corticoide, que ocorre nas primeiras semanas de dose alta e melhora após diminuição ou suspensão da medicação
    • Crises convulsivas, cefaleias, coma
    • Mielite transversa, mononeurite múltipla e polineuropatia periférica

f)       e) Vasculares

  • Aterosclerose: importante causa de morbimortalidade
  • Fenômeno de Raynaud: palidez, seguido de cianose e rubor
  • Aumento de risco de eventos trombóticos: idade avançada, HAS, dislipidemia, anticorpo antifosfolipide, uso de corticoide em doses elevadas
  • IAM, AVC e AIT: maior mortalidade em lúpicos do que outros paciente

g)      f) Cardíacas

  • Pericardite: mais frequente, acompanhada de pleurite. Manifesta-se por dor torácica subesternal, que melhora com a inclinação para a frente, sendo exarcebada por tosse ou inspiração (Valsava)
  • Derrame pericárdico: comum, pequeno e moderado
  • Pericardite constritiva e tamponamento cardíaco: raros
  • Miocardite: incomum, com febrem dispneia, palpitações, arritmias ou ICC
  • Endocardite asséptica ou de Libman-Sacks: insuficiência valvar através de vegetação não-bacteriana no lado E do coração

h)     g) Pulmonares

  • Pleurite: mais frequente, com ou sem derrame pleural, sendo bilaterais e pequenos, com características exsudativas, aumento de proteína, glicose normal, celularidade <10.000 e baixo nível de complemento
  • Pneumonite intersticial: com alveolite (infiltrado em vidro fosco)
  • Pneumonite lúpica aguda: febre, tosse, dispneia
  • Hemorragia alveolar difusa: queda de hematócrito ou infiltrados difusos, com ou sem hemoptise
  • Embolia pulmonar
  • Síndrome do encolhimento pulmonar: diminuição do volume pulmonar, devido a miopatia do diafragma 

i)        h) Gastrintestinais

  • Peritonite autoimune
  • Pancreatite autoimune
  • Gastroparesia
  • Vasculite intestinal: perfurações, isquemia, choque séptico

j)        i) Oculares

  • Síndrome de Sjogren
  • Ceratites
  • Conjuntivites
  • Vasculite de retina: graves, e pode causar amaurose em dias

 

4 – Avaliação Laboratorial

a)      a) Pesquisa de Anticorpos

  • FAN: positivo em 99% dos pacientes de LES não tratado, com alta sensibilidade
    • Título: moderado a alto (1/160 a 11/1640)
    • Imunoflorescência: determina contra quais estruturas celulares o FAN está direcionado, sugerindo alguns anticorpos específicos como responsáveis pela ativação dele
  • Anti-DNA dupla hélice: específico, sendo útil no seguimento, pois seus títulos se associam a glomerulonefrite
  • Anti-Sm (Smith): específico, sem indicação de seguimento
  • Anti-P: específico, associado a psicose
  • Anti-RO: não-específico, associado ao lúpus neonatal + BAV. Deve ser pesquisado em mulheres lúpicas gestantes
  • Anti-La: não-específico, associado a síndrome de Sjogren
  • Anti-histona: não específico, comum em LES induzida por drogas
  • Anti-fosfolípide (anticoagulante lúpico, anticardiolipina e antibeta-2-glicoproteina): não-específico, indicando pacientes com maior risco de trombose, abortos e plaquetopenia
  • Anti-RNP: não-específico, elevado em doenças mistas do tecido conjuntiv

b)     b) Outros exames

  • Hemograma completo: citopenias com anemias, leuco, linfo e plaquetopenia causado pelo LES ou complicação do tratamento
  • Teste de Coombs direto
  • Dosagem de bilirrubina indireta, DHL, haptoglobina, Fe, Vit B12 e Ác fólico: indica presença de anemia
    • Anemia hemolítica: bilirrubina alta, DHL alto, haptoglobina baixo
    • Anemia de doença crônica: anemia normocrômica e normocítica
    • Anemia carencial: Ferro baixo, ferretina baixa ou deficiência de B12
  • Dosagem de creatinina, Urina Tipo-I, Proteinúria 24h e Cl de Creatinia: avalia a função renal
  • Provas de fase aguda, como VHS e PCR: elevadas na vigência de quadro infecciosos, que podem desencadear atividade, sobretudo em imunossuprimidos
  • Dosagem de complemento totla, como CH50 ou CH100 e frações de C3 e C4: baixos durante atividade lúpica
  • Raio-X: derrames pleurais e cardiomegalias ou diagnóstico diferencial de artrite reumatóide

                                                                                                              

5 – Diagnóstico

Múltiplas apresentações, e a presença de 4 ou mais do critério tem alta sensibilidade:

  •                  Eritema malar: poupando o sulco nasolabial
  •                  Lesão discoide: lesão eritematosa com cicatriz atrófica
  •                  Fotossensibilidade: rash cutâneo
  •                  Úlcera de mucosa oral ou nasal: geralmente indolores
  •                  Artrite não erosiva: acometendo 2 ou + articulações, com dor, edema ou derrame articular
  •                  Serosite: pleurite ou pericardite
  •                  Comprometimento renal: proteinúria > 500mg/24h ou cilindros celulares
  •                Comprometimento neurológico: convulsão ou psicose
  •                  Comprometimento hematológico: anemia hemolítica, leucopenia, linfopenia, plaquetopenia
  •                  Comprometimento imunológico: anticorpos positivos ou teste de falso-positivo para VDRL
  •                 FAN: positivo

Também pode ser diagnosticado caso apresente acometimento renal com biópsia compatível com nefrite lúpica e FAN ou Anti-DNA +

6 – Diagnóstico diferencial

  • Artrite reumatoide
  • Dermatomiosite
  • Infecções virais crônicas: hepatite C e B
  • Endocardite bacteriana: artrite, rash cutâneo, queda de complemento

 

7 – Tratamento

Monitorizar e evitar novas crises pois não há cura, suprimindo os sintomas em nível aceitável e prevenção de danos de órgãos-alvo

a)         a) Orientações gerais

  • Dieta rica em cálcio
  • Atividade física regular
  • Tratar dislipidemia e HAS
  • Minimizar exposição a luz UV
  • Orientar sobre riscos na gestação

 

b)      b) Medicamentos

  • AINES: artrite, manifestações de partes moles, serosite leve e febre
  • Antimaláricos: artrites, quadros cutâneos leves e fadiga. Reduz a recidiva da doença
    • Doses:
      • Cloroquina 250mg/d
      • Hidroxicloroquina 400mg/d
    • Benefícios: melhora dos perfis de lipoproteínas, profilaxia contra eventos trombóticos e redução de lesões cutânea
    • Toxicidade ocular: deposição do agente na camada epitelial da retina, podendo danificar as hastes e cones
      • Exame oftalmológico: a cada 6-12 meses, acuidade visual, lâmpada de fenda, teste de campo visual, fundoscopia
      • Mudanças: mácula com edema, aumento de pigmentação, perda do reflexo foveal à luz brilhante, palidez do disco óptico e atenuação das arteríolas retinianas.
  • Metotrexato: artrite crônica, franca e recorrente que não respondem a doses baixas de corticoides oral, AINE ou antimaláricos
  • Corticoides: após o controle da atividade, é necessária redução gradual da dose, embora a redução total seja uma meta, muitos necessitam de manutenção com doses baixas para evitar recorrências
    • Artralgias e artrites não responsiva ao AINE: < 0,1mg/kg de Prednisona
    • Dermatites extensas: < 0,5mg/kg de Prednisona
    • Anemia hemolítica ou plaquetopenia grave:
      • Dose de ataque: Prednisona 1mg/kg/d
      • Dose de manutenção: imunossupressores poupadores de corticoide
        • Azatioprina: 3mg/kg/d
        •  Micofelonato de mofetila: 3g/d
    • Refratário
      • Pulsoterapia: com Metilprednisolona 1g/d por 3 dias ou imunoglobulina intravenosa 2g/kg dividido em 2 dias
      •  Rituximabe + anti-CD 20: 375mg/m² de superfície corpórea/dose em 4 doses com intervalo de 1 semana cada
    • Outas opções para plaquetopenia grave
      •   Danazol
      •   Plasmaferese
      •   Esplenectomia
    • Episódios graves: anos de terapia de manutenção com corticoide de baixa dose, podendo ser aumentada para prevenir ou tratar novos surtos da doença, sempre tentando reduzir o uso, devido aos seus efeitos colaterais
  • Dapsona ou talidomida: usado em casos refratários
  • Imunoglobulina intravenosa e Plasmaférese: usados quando não há respostas ao tratamento convencional, sendo utilizado em casos hematológicos (plaquetopenia e anemia grave), pulmonar (pneumonite) e neurológico
  • Ciclofosfamida: episódios graves, como vasculites, quadros pulmonares e nefrite lúpica grave III e IV
    •  Dose: pulsoterapia IV 0,5 mg/m² a cada mês
  • Azatioprina: permite a redução da dose de manutenção de corticoide, usado como agente poupador de corticoide. Utilizado na manutenção do tratamento de LES renal após a indução com ciclofosfamida
    •    Doses:
      • 3mg/kg/d à pode causar hepatoxocididade e hipersensibilidade (elevação de AST, febre, dor abominal e erupção)
      • 1,5 mg/kg/d à associado a menor taxa de desenvolvimento de formas graves da doença, como nefrite ou SNC
  • Micofenolato de mofetila: efetivo em alguns pacientes com episódios graves. Utilizado na manutenção do tratamento de LES renal após a indução com ciclofosfamida.
    • Dose: 3g/d

 

8 – Prognóstico e Sobrevida

  •          2 anos: 90-95%
  •          5 anos: 82-90%
  •          10 anos:
    •  71-80%
    •  50%: associado a HAS, síndrome nefrótica, anemia, hipoalbunemia, hipocomplementenemia e anticorpos antifosfolipide
  •          20 anos: 63-75%
  •          Transplantados: maior índice de rejeição

 

9 – Situações especiais:

a)      a) Gestação

  •  Grande chance de perda fetal: maior em mães com atividade agressiva da doença, anticorpos antifosfolipide e nefrite lúpica
  •  Problemas na gravidez: retardo de crescimento intrauterino, prematuridade, HAS , pré-eclâmpsia, diabetes





Fonte: Apostila Reumatologia MEDCEL 2017

 

Anatomia do Fígado

LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO